Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Marcio Moreira Alves e seu discurso

O que levou ao fechamento do regime não foi nem o vazio de Brasília nem a efervescência do Rio de Janeiro. O que levou ao fechamento do regime foi a Guerra Fria, foi a doutrinação sistemática, dentro da Escola Superior de Guerra, de duas ou três gerações de militares que se imbuíram da missão de combater o comunismo, que eles viam em toda parte e de cuja definição tinham idéias vagas. Comunistas para eles eram todos aqueles a favor de reformas sociais, melhor distribuição de renda etc.

O conflito internacionalizado da Guerra Fria também foi assumido no Brasil por uma parte das esquerdas, que partiu para a luta armada em princípios de 1968. As primeiras ações de guerrilha urbana são de janeiro de 68. A partir do momento em que uma organização armada assaltou um hospital em São Paulo, e um capitão do Exército fugiu de um quartel levando uma quantidade de fuzis — era o Carlos Lamarca —, os generais principais, especialmente Emílio Garrastazu Médici, que era o chefe do Serviço Nacional de Informações, e Jaime Portela, que era o chefe da Casa Militar do general Costa e Silva, decidiram que não era possível manter o Brasil com um simulacro de democracia e ao mesmo tempo combater a guerrilha urbana. Portanto, decidiram o fechamento do regime e ficaram apenas esperando o pretexto. Tiveram várias opções, e o melhor pretexto que encontraram foi um pequeno discurso meu, baseado na história de uma peça grega, das mulheres que se recusaram aos homens enquanto eles não voltassem a combater. Eu dizia que, tendo em vista as violências praticadas em nome do Exército por um grupo de militares, as mulheres deviam recusar-se aos militares, e que os estudantes que haviam sido espancados, tiroteados na Universidade de Brasília, não deveriam desfilar no 7 de setembro. Era uma mensagem muito curta, muito direta, muito clara, capaz de ser entendida por qualquer tenente que tivesse saído da Academia Militar das Agulhas Negras naqueles quatro anos. Por isso, essa declaração, que não teve na ocasião nenhum registro na imprensa, a não ser uma pequena notinha de cinco linhas na Folha de S. Paulo, foi reproduzida e mandada a todos os quartéis do Brasil, como preparação para o golpe.

A minha intervenção tinha ainda outra vantagem para os golpistas: tinha sido feita da tribuna e, como a imunidade parlamentar da tribuna é um dos fundamentos da existência do Parlamento, é uma imunidade absolutamente inquestionável, os militares imaginavam que a Câmara recusaria a licença para me processar. E fizeram tudo para isso. Realmente a Câmara, apesar da grande maioria de deputados a favor do governo, recusou a licença, e por isso foi fechada.

Fonte:ALVES, Marcio Moreira. Marcio Moreira Alves II (depoimento, 1997). Rio de Janeiro, CPDOC/ALERJ, 1998.