Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Comício de Curitiba

Na quinta-feira, 12 de janeiro de 1984, aconteceu o primeiro grande comício do ano em que a Emenda Dante de Oliveira seria votada. Foi em Curitiba, com uma mobilização muito maior que envolveu 2,5 milhões de panfletos, 15 mil cartazes, 30 mil cédulas eleitorais e três mil camisetas. Houve ainda 15 inserções publicitárias na TV - salvo na retransmissora local da Globo, que recusou-se a veicular as chamadas, ainda que pagas.

O então deputado estadual do PMDB, Roberto Requião foi um dos organizadores. Ele diz que o governador da época, José Richa, não estava muito empenhado e que o ato surgiu a partir da mobilização da base do partido, da militância e dos integrantes do MR-8.

Às cinco da tarde, havia 50 mil pessoas na Boca Maldita, um quadrilátero cheio de cafés e bares que desde 1956 funciona como uma espécie de palanque livre para o debate político da cidade. Ou seja, cinco por cento da população total. Se o mesmo percentual tivesse se reunido em Recife, as diretas teriam juntado quatro vezes mais gente na capital pernambucana.

A apresentação ficou a entusiasmada do locutor esportivo Osmar Santos, que o senador Álvaro Dias acompanhara durante a transmissão da São Silvestre. Dias convidou Osmar, que aceitou na hora, começando um périplo que o transformaria na voz das Diretas. O garotinho, como era chamado, reforçou o clima esperançoso e bem humorado do comício:

Começa aqui a grande arrancada do país. O Paraná sai na frente. Vamo que vamo!

No palanque, José Richa, Franco Montoro, Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, além de artistas como Martinho da Vila, Raul Cortez, Ruth Escobar, Dina Sfat e a ex-atriz de novelas e deputada federal do PT Bete Mendes, que fez um apelo à união:

Aqui não há divisão de partidos. Nossos inimigos não são outros partidos de oposição: estão no palácio do Planalto.

Mas nem Lula, nem Leonel Brizola foram a Curitiba.