Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

O Comício da Sé

Num almoço de confraternização com repórteres políticos, no final de 1983, o governador Franco Montoro deu um passo decisivo na campanha das diretas. De acordo com João Russo, editor de política da Folha na época, quem tomou a iniciativa de cobrar mais atuação em favor da campanha foi Galeno de Freitas, colunista e repórter do jornal. Naquela mesma quarta-feira, 21 de dezembro, na página dois do jornal, Galeno criticara o que chamou de auto-candidatura de Ulysses Guimarães](http://www.bradoretumbante.org.br/personagens/ulysses-guimaraes "ulysses-guimaraes") que "em nada ajuda, ao contrário, prejudica a campanha".

Frente a frente com o governador, o repórter cobrou: quando ele colocaria a campanha nas ruas? Montoro anunciou que isso aconteceria no dia 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo, num comício monstro de meio milhão de pessoas no Campo de Marte, onde o papa João Paulo II rezara missa para milhares de fiéis, três anos antes. Na mobilização dos paulistanos, usaria todos os recursos de que dispunha.

Montoro tinha de resolver, primeiro, um problema sério: convencer os outros dirigentes peemdebistas de que seu projeto era viável. Fernando Henrique Cardoso, José Serra, José Gregori, Alberto Goldman, Alberto Quartim de Moraes, Lu Fernandes e outros relembram o ceticismo diante da proposta do governador. Mas ele insistiu.

A campanha ganhou novo fôlego a partir de janeiro. Na segunda reunião do comitê executivo de preparação do comício de São Paulo, já havia representantes de várias entidades e alguns artistas que aprovaram por unanimidade o slogan eficiente e óbvio - "Eu quero votar para presidente.

A mobilização foi um vale-tudo: transporte grátis, cinco milhões de folhetos, 600 outdoors e anúncios em rádio e TV. O governo ofereceu transporte grátis. Na véspera, dirigentes das torcidas organizadas do Corinthians, Santos, São Paulo e Palmeiras anunciaram que seus exércitos marchariam rumo à praça da Sé. A pedido de Dom Paulo Evaristo Arns, maioria da paróquias cancelou serviço no horário do comício, embora a Igreja não assumisse oficialmente qualquer envolvimento com a manifestação. Uma centena de publicitários colocou seus nomes num anúncio a favor das diretas. O Instituto Gallup ouviu os brasileiros e comprovou que, àquela altura, descontados os entrevistados sem opinião formada, nove em cada dez brasileiros queriam o direito de escolher pessoalmente o próximo presidente (três anos antes, eram sete em dez).

Até os jornalistas, cuja isenção costuma ser apresentada como premissa, entraram no jogo com um manifesto, publicado nos jornais de 25 de janeiro. Encabeçado por Gabriel Romeiro e encerrado por Alexandre Kadunc, levava, entrou outras, as assinaturas de Osmar Santos, Henfil, Mino Carta, Nirlando Beirão, Rodolfo Gamberini, Rui Falcão, Ottoni Ferrnandes, Marcelo Bairão, Eurípedes Alcântara, Jacob Gorender, Tonico Ferreira, Carlos Tramontina, Joelmir Beting, Dácio Nitrini, Matins Suzuki, Tarso de Castro, Luiz Nassif, Juarez Soares, Ricardo Kotscho, José Paulo Kupfer, Tostão, Maria Cristina Poli, Ernesto Paglia, Pepe Escobar, Igor Fuser e Perseu Abramo.

Naquele 25 de janeiro de 1984, São Paulo fora para as ruas - e não era por causa do aniversário da cidade. Tinha até um cacique da tribo bororó. No meio da massa, dissidentes do PCB distribuíam o jornal A Esquerda. Um ambulante entregava panfletos anunciando o milagreiro Morris Cerullo, ambulantes vendiam camisetas com os dizeres: Já sei escovar os dentes, quero votar para presidente. Disciplinados, os militantes do PC do B tomaram a frente do palanque com suas bandeiras vermelhas. Com algum esforço, Osmar Santos conseguiu que parte deles as baixasse, permitindo que o público mais afastado pudesse acompanhar o que acontecia na estrutura coberta erguida sobre as escadarias da catedral. A essa altura, Franco Montoro já fora informado por Quartim de Moraes que a praça estava lotada. O governador acompanhava um ato pelo aniversário da USP, do outro lado da cidade e deixou o local apressadamente.

No palanque, artistas como Fernanda Montenegro, Christiane Torloni, Bruna Lombardi, Carlos Vereza, Chico Buarque, Gilberto Gil, [Fafá de Belém(http://www.bradoretumbante.org.br/videos/fafa-de-belem-campanha-das-diretas-artistas-nas-diretas-historias-pessoais "faf-de-bel-m"), Alceu Valença - a maioria com camisetas amarelas com a frase Eu quero votar pra presidente. Além dos cinco governadores - Montoro, Nabor Júnior, do Acre, José Richa, do Paraná, Íris Rezende, de Goiás e Leonel Brizola estavam ali também Lula, Ulysses, Covas, Arraes, Dante de Oliveira, Quércia e até políticos do PDS como Teodorico Ferraço do Espírito Santo e o prefeito de Nova Horizonte, Sidney Biasi.

O Ballet Stagium deveria ser a primeira atração, mas cancelaram a apresentação porque o palanque fechado impediria que a multidão apreciasse a movimentação dos bailarinos. Às quatro da tarde, Osmar Santos assumiu o microfone e perguntou:

Quando é que meu povo quer as diretas?

A massa respondeu, num só grito:

Já!