Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Tancredo candidato no Colégio Eleitoral

A derrota da Emenda Dante de Oliveira frustrou o país. Mais 22 votos e o futuro presidente da República seria eleito por todos os brasileiros. Rapidamente, a campanha migrou para outro eixo: o governador de Minas Gerais, Tancredo Neves. Vários personagens tratam desse assunto neste site. E numa entrevista para os jornalistas Inaldo Sampaio, Paulo Sérgio Scarpa e Sérgio Montenegro Filho e pelo cientista político Túlio Velho Barreto, numa série do Jornal do Commercio de Recife, o ex-deputado e ex-ministro da Justiça Fernando Lyra relembrou como foi a movimentação de Tancredo rumo ao Colégio Eleitoral em 1985:

LYRA - Teve um fato sério que para mim foi o determinante do Colégio Eleitoral. Doutor Tancredo me disse: ‘O PMDB não tem maioria para aprovar a emenda das diretas. A gente só aprova com outros partidos. A esquerda não tem problema, mas a gente precisa criar uma dissidência dentro do PDS. Cuide disso, e urgente’. Em 1983 e 1984, quando eu presidia as sessões na Câmara das 13h às 14h, incentivou o deputado Albérico Cordeiro (AL) a criar um grupo das diretas no PDS, com outros quatro deputados, o que aconteceu, começou a ser notícia e começou a crescer. Logo depois, Figueiredo viajou para os EUA para ser operado e Albérico Cordeiro teve uma audiência com o vice-presidente Aureliano Chaves, que foi simpático à formação do grupo pró-diretas do PDS. E tudo isso resultou de uma das missões que Tancredo me confiava.

JC - Uma vez definida a candidatura, os senhores temiam algum retrocesso?

LYRA - Não, mas houve uma tentativa. Me encontrei, através de uma amizade, com um capitão da Aeronáutica que disse que havia interesse de setores amplos da Aeronáutica na mudança do regime e que apoiavam Tancredo. Comuniquei ao doutor Tancredo que não queria ter nenhuma participação na área militar, porque não tinha nenhuma prática, nem intimidade, nem relacionamentos. Mas, certa vez, esse militar me ligou dizendo que tinha um assunto seríssimo. No dia seguinte ele saiu do Rio para Brasília. Quando me contou que houve uma reunião em Foz do Iguaçu entre o general Wálter Pires (ministro do Exército), Moacyr Dallas (presidente do Senado) e Cordeiro Guerra (presidente do Supremo Tribunal Federal) com a seguinte estratégia: ‘A Mesa do Senado, que é quem acolhe os votos do Colégio Eleitoral, decidirá que só aceitará os votos dos membros do partido do candidato’. Isto é, Tancredo só receberia apoio do PMDB, que era minoria. O Senado aprovaria e submeteria essa tese ao STF, que concordaria. E o Cordeiro Guerra ratificaria a posição do Senado. E Wálter Pires garantiria a “lei”.

JC - Era a fidelidade partidária?

LYRA - Exatamente. E aí chega para me entrevistar um repórter de Veja e eu digo que tenho uma notícia, mas tem de ser destaque na revista. Ele aceitou, mas tive de visitar o doutor Tancredo, apressadamente, para contar que havia a tentativa de golpe contra ele e que seria dada pelo ministro do Exército. Ele me disse então: “Denuncie, agora não generalize, cite os nomes”. Escrevi um artigo assinado e me lembro, como se fosse hoje, indo para São Paulo porque a Veja chegava em Brasília no domingo de manhã, naquela época. Em São Paulo teria condições de ler a revista no sábado à tarde. Imaginem minha angústia.

JC - E a repercussão?

LYRA - Foi de tal ordem que ninguém falou mais no assunto. Favas contadas. O Congresso decidiu pelo acolhimento de todos os votos no Colégio Eleitoral.

JC - Em que momento o senhor sentiu que Tancredo venceria Paulo Maluf (PDS)?

LYRA - No dia em que Marco Maciel foi ao meu apartamento em Brasília, em 27 de junho de 84. Logo que ele saiu liguei para Tancredo: ‘O senhor tem um corte de tropical inglês escuro?’ Ele me respondeu que sim. ‘Seu alfaiate é de Minas?’. ‘É’, disse. ‘Então, doutor Tancredo, mande preparar a roupa que eu lhe darei de presente a gravata’. ‘Que conversa louca é essa, Fernando’, perguntou Tancredo. Eu respondi: ‘Marco Maciel acabou de sair da minha casa. Certamente jamais viria aqui se não tivesse certeza de que o senhor será o futuro presidente’.