Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

A volta de Brizola ao Brasil

Com um terno em tecido jeans e um distintivo tricolor do antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), hoje Partido Democrático Trabalhista (PDT), na lapela, o engenheiro Leonel Brizola chegou ao aeroporto de Foz do Iguaçu às 17h25 do dia 06 de setembro de 1979, para encerrar o mais longo exílio já vivido por um político brasileiro. Ele desceu de um bimotor Piper de oito lugares que o trazia de Assunção e atravessou a pista acenando alegremente. O ex-governador Brizola, certamente o mais ilustre dos anistiados pelo presidente João Figueiredo, falou pouco e de forma cautelosa na sua volta. Em Foz do Iguaçu, numa breve entrevista ao ar livre, bem às margens das cataratas.

Na manhã seguinte, uma sexta-feira, transportado para São Borja, a terra dos ex-presidentes Getúlio Vargas, seu padrinho de casamento, e João Goulart, seu cunhado, foi recebido pela velha guarda gaúcha trabalhista e por alguns representantes da jovem ala de esquerda, com faixas que pregavam o “trabalhismo popular e socialista”. Brizola então prescreveu as três regras de ouro a serem observadas por todos os seus seguidores nos próximos meses: cautela, paciência e prudência. Capturando senhas do governo ditatorial, enviando mensagens através de sinais de fumaça e estabelecendo um sistema de acordos tácitos, Brizola e muitos exilados que retornaram ao país, bem como velhos políticos que se rearticulavam, construíram o tecido de um período de conciliação nacional. Essa conciliação devolveu às forças conservadoras brasileiras a sua antiga tradição de ajustar através de concessões situações que do ponto de vista social ou político parecem inajustáveis. Nenhum dos adversários do Golpe de 1964 se apresentou com tanta dedicação como o ex-governador Brizola. Disposto a regressar ao Brasil mesmo sem ter sido anistiado, Brizola foi convencido por amigos a aguardar que seu nome fosse incluído na lei da anistia.

Contudo, seu retorno só ficou assegurado duas horas antes do pouso do pequeno avião que o trouxe de Assunção por um recado telefônico de Brasília que mandou riscar seu nome da lista de indesejáveis do computador da Polícia Federal, onde ainda figurava apesar da lei da anistia. O visto de entrada saiu em um minuto. Mas, logo na primeira conversa com um assessor em Porto Alegre, o recém chegado líder pedetista examinou um soturno convite impresso para o seu próprio enterro, distribuído na véspera a muitos de seus amigos no Rio Grande do Sul.

Editado de Veja, 12/09/1979, pág. 20-26. Transcrito do site do PDT