Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Generais no poder

João Baptista de Oliveira Figueiredo foi o último general a chegar à presidência da República na ditadura. A ele caberia completar o projeto de abertura lenta, segura e gradual planejado pelos generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, entregando o poder a um civil alinhado com os princípios da Revolução de março de 1964.

Para garantir sua eleição indireta, em abril de 1977 Geisel fechou o Congresso e mudou a composição do colégio eleitoral, aumentando os delegados das assembleias, modificando o cálculo da representação por estados para privilegiar os menos populosos (mais sensíveis à força do governo federal) e criando os senadores biônicos que não se submetiam a eleições diretas. Era a forma de barrar o crescimento da oposição, que três anos antes, obtivera uma expressiva vitória nas urnas.

Desde o primeiro presidente republicano, oito militares de alta patente tinham chegado à presidência. Apenas dois pelo voto – Hermes da Fonseca e Eurico Gaspar Dutra.

No golpe que derrubara o presidente João Goulart, o Jango, o primeiro a se posicionar na condição de chefe do movimento foi Arthur da Costa e Silva, ao auto-intitulou-se comandante do Exército, formando com os ministros da Marinha e Aeronáutica, um triunvirato batizado de Comando Supremo da Revolução.

A essa altura, os políticos profissionais não mandavam mais nada, como constatou o deputado Ranieri Mazzilli, que de acordo com a Constituição, assumira a presidência logo após o Congresso ter declarado – ilegalmente, registre-se – que Jango não estava mais no poder. Numa conversa telefônica amistosa com Costa e Silva, o suposto presidente recebeu uma resposta pra lá de atravessada:

"Meu ministro, como vai?"

"Seu ministro, não. Comandante-­chefe da Revolução."

A essa altura, os contra-revolucionários não sabiam o que fazer. Pelo menos três mil pessoas tinham sido presas. Jango estava em Montevidéu, Leonel Brizola, escondido em Porto Alegre, Miguel Arraes, preso em Fernando de Noronha, Francisco Julião homiziado em seu gabinete na Câmara dos Deputados, o líder comunista Luiz Carlos Prestes na clandestinidade.

O tal Comando Supremo baixou um ato institucional, cassou o mandato de dezenas de parlamentares e estabeleceu que o mandato de Jango seria completado por um presidente eleito indiretamente.

Nesse momento, alguns políticos tentaram se articular em torno do nome do comandante do II Exército, o general Amaury Kruel, mas Castelo Branco, ex-chefe do Estado-Maior do Exército e principal liderança militar do golpe se impôs a ele e a Costa e Silva, que era contra escolher um dos chefes do movimento militar para presidente, o que poderia abrir uma brecha no dispositivo militar e pretendia postergar a eleição até que o país fosse expurgado “dos elementos de subversão e corrupção que o infestam”.

No dia 10 de abril, um ato institucional cassou o mandato de 40 deputados e os direitos políticos de outros 60 brasileiros. No dia seguinte, o agora marechal Castelo Branco foi eleito indiretamente, tendo como vice o deputado mineiro José Maria Alckmin. Teve o voto de 361 congressistas entre os quais o deputado Ulysses Guimarães e o senador Juscelino Kubitschek, do PSD. O ex-tenente de 1922 Juarez Távora recebeu três votos, o marechal Dutra dois e 72 parlamentares abstiveram-se. Tancredo Neves foi um deles (no dia anterior, 40 deputados tinham sid, o cassados com base no ato institucional). Parlamentares inconformados com o novo regime ausentaram-se ou se abstiveram, como fez Tancredo Neves, do PSD. Outros, como, também pessedistas, votaram em Castelo Branco. Seu vice, José Maria Alckmin, só foi eleito no segundo turno, depois que Auro de Moura Andrade desistiu de concorrer ao cargo.

Em nota oficial, divulgada após o resultado, o novo presidente disse que pretendia entregar o governo a seu sucessor, legitimamente eleito pelo povo, no início de 1966, uma nação coesa e ainda mais confiante em seu futuro. Não cumpriu a promessa, que a imprensa publicou junto com a passagem de 20 generais para reserva e a revogação do decreto de Jango que permitia a desapropriação de terras sem pagamento prévio de indenização para fins de reforma agrária.

Os jornais que registraram a posse de Castelo, cinco dias mais tarde, abriram espaço também para outras notícias que davam conta da situação política do país: a polícia política comunicou que não revelaria nem o número de presos, “para não comprometer as investigações” e alardeou a descoberta de 15 toneladas de material subversivo na casa de suspeitos, só na Guanabara e de documentos “estarrecedores” num sítio de Jango. Também mereceu registro a lista dos cassados e a prisão de nove espiões chineses (na verdade, funcionários de uma estatal), mantidos incomunicáveis num navio.

Na madrugada de 17 de julho de 1965, o Congresso aprovou por 205 votos (maioria absoluta), a emenda João Agripino que prorrogou o mandato de Castelo Branco. Uma subemenda apresentada por Ulysses Guimarães mudou a Constituição, passando a exigir maioria absoluta nas futuras eleições presidenciais – emenda essa cujo sentido só seria retomado na Constituição de 1988, levando aos dois turnos de 1989, vencidos por Collor de Mello.

Em outubro de 1965, aconteceram eleições diretas para o governo de 11 Estados. Em Minas e no Rio de Janeiro, os favoritos, Sebastião Pais de Almeida e o marechal Henrique Teixeira Lott não conseguiram nem registro na Justiça Eleitoral, sob a alegação de que eram anti-revolucionários e foram substituídos por outros dois pedessistas, Negrão de Lima e Israel Pinheiro, mais palatáveis, mas ligados a Juscelino. Foram eleitos, os setores mais radicais das forças armadas reagiram e Castello retrucou encaminhando ao Congresso uma emenda constitucional que facilitava muito a intervenção nos Estados e regulamentava as atividades das pessoas com direitos políticos suspensos.

Mas no Congresso, o governo militar continuou a enfrentar resistência, até o baixar novo ato institucional. Além de validar as mudanças propostas na emenda, o AI-2 estabeleceu a eleição indireta para a presidência, simplificou a decretação de estado de sítio, extinguiu os partidos, reformou o Supremo Tribunal Federal, permitiu a suspensão de direitos políticos e a cassação de mandatos e extinguiu os partidos. Logo adiante, um ato complementar permitiu o surgimento de duas organizações provisórias e assim surgiram a Aliança Renovadora Nacional, Arena, governista e o Movimento Democrático Brasileiro, MDB, de oposição. Na definição de seus muitos críticos, tratava-se dos partidos do sim e do sim, senhor.

Em seu programa, a Arena se definiria assim:

Expressão política da Revolução de Março de 1964, que uniu os brasileiros em geral, contra a ameaça do caos econômico, da corrupção administrativa e da ação radical das minorias ativistas, a ARENA é uma aliança de nosso povo, uma coligação de correntes de opinião, uma aliança nacional“.

Já o MDB tinha como meta a luta pelo restabelecimento do sistema democrático-representativo com eleições diretas em todos os níveis e autonomia legislativa e judiciária. Seu primeiro manifesto criticava as práticas antidemocráticas dos governo, sua política econômico-financeira, além de convocar todos os setores da sociedade brasileira para que “identificados conosco nos mesmos sentimentos, proclamem sua inconformidade com a violência, o arbítrio e a subversão da ordem democrática, certos todos de que, sem esta, jamais teremos paz, desenvolvimento e progresso.

Extintos os partidos, o marechal Costa e Silva se apresentou como candidato a suceder Castelo Branco. No início de 1966, seu nome foi oficializado pela Arena.

Gaúcho de Taquari, nascido em 3 de outubro de 1902, Costa e Silva fora o primeiro da turma na Escola Militar e na de Aperfeiçoamento de Oficiais. Passara seus meses na cadeia por ter participado da revolução de 1922. Marcara presença na revolução de 30, empunhando a bandeira na vanguarda do 3° Regimento de Infantaria que cercou o palácio Guanabara.

Daí em diante, não teve grande destaque no campo militar. Era major em São João del Rei quando se desentendeu com o colega Carlos Luiz Guedes, por causa de um jogo de pôquer em que apostou – e perdeu – a geladeira da família. Em represália, mandou abrir um inquérito para apurar o suposto desaparecimento de um peixe do frigorífico do quartel. A confusão foi resolvida pelo então advogado Tancredo Neves. No dia 31 de março de 1964, Guedes comandava a Infantaria Divisionária, primeira tropa a mover-se contra Jango.

De acordo com Ronaldo Costa Couto, a indicação de Costa e Silva, que não era o preferido de Castelo tem uma explicação clara:

"Para entender a lógica desse processo, é preciso relembrar que os generais-Presidentes do golpe de 1964 não têm, isoladamente, os plenos poderes do ditador "clássico". Eles são escolhidos dentro do conjunto de generais-de-exército, os "quatro-estrelas", para governar em nome do sistema militar. Não é uma ditadura pessoal, como a de Getúlio Vargas no Estado Novo. A sucessão é um momento especial nesse processo, envolvendo articulações no universo militar para a indicação do "quatro-estrelas" que vai presidir a República, após a ratificação formal do Congresso, importante para manter as aparências dentro e fora do país. Foi assim, de certo modo, no caso do próprio Castello Branco, escolhido por consenso. É essa regra tácita que está sendo quebrada."

Na oposição, houve quem buscasse barrar a vitória de Costa e Silva de qualquer maneira. A mais branda era espalhar piadas que o ridicularizavam, passando a imagem de obtuso. Entre elas, a que garantia ter o general ordenado um inquérito para descobrir quem roubara sua biblioteca, pois ainda não acabara de colorir o segundo livro. A mais direta foi a explosão de uma bomba no saguão do aeroporto dos Guararapes em Recife, no dia 25 de julho de 1966: o artefato caseiro feriu 13 pessoas e matou duas - um almirante da reserva e um jornalista que aguardavam o marechal, que aterrissara em João Pessoa, por causa de uma pane em seu avião. A bomba tinha sido colocada por um militante da Ação Popular, que àquela altura estava cindida em dois grupos. Ambos eram contra a ditadura, mas um defendia a luta armada.

Em setembro, o partido do governo venceu com folga a eleição indireta para os governos de 11 Estados. Dois meses depois, os governistas também fizeram ampla maioria nas eleições para deputados, prefeitos e vereadores, com uma expressiva vitória do partido do governo, a Arena. Vitória relativa, já que para ao Senado, a Arena somou 44,7% do total de votos em disputa, o MDB ficou com 34,2% e os votos nulos e brancos somaram 50,5%.

O MDB só teve bom resultado no Rio de Janeiro, sob um comando claramente adesista, de Chagas Freitas e na cidade de São Paulo, onde foram eleitos vários nomes ligados ao janismo. Para senador em São Paulo, os votos nulos e brancos somaram 25% e houve 16,8% de abstenções, o que deu a vitória ao arenista Carvalho Pinto (que Jânio levara ao governo de São Paulo e Jango, ao ministério da Fazenda).

Em 3 de outubro de 1966, os parlamentares do recém-criado MDB deixaram o plenário em protesto contra a eleição de Costa e Silva. O novo presidente garantiu que sua investidura coincidir com o fim dos atos institucionais e o pleno restabelecimento da ordem constitucional no país, mas durante a votação. Os líderes do MDB protestaram contra a eleição indireta e se retiraram em bloco do plenário. O deputado Anísio Rocha que em dezembro do ano anterior anunciara a candidatura do general, ficou e votou com os governistas.

Ainda em outubro, o jornal Tribuna da Imprensa, do ex-governador Carlos Lacerda publicou um manifesto em que ele defendia a criação de uma Frente Ampla, que unisse antigos adversários em favor da democracia.

A oposição a Costa e Silva atuava em várias frentes: em protestos e passeatas estudantis nas grandes cidades, em greves operárias em Osasco, próximo a São Paulo e no Congresso Nacional, onde os parlamentares do MDB repercutiam as manifestações e denunciavam a falta de democracia e a violência policial.

Um desses discursos, proferido pelo deputado Marcio Moreira Alves no dia 4 de setembro de 1968, foi o pretexto para que o governo pedisse ao Supremo Tribunal Federal que abrisse um processo de cassação. O STF empurrou o assunto para o Congresso, onde Covas liderou uma rebelião que conquistou o apoio de arenistas e negou a licença para o processo. A reação do governo Costa e Silva veio na forma do a Ato Institucional número 5, que representou um gigantesco endurecimento, um golpe dentro do golpe.

Em agosto de 1969, o presidente teve um acidente vascular cerebral e foi substituído não por seu vice, o deputado Pedro Aleixo, mas por uma junta formada pelos três ministros militares. A trinca promulgou a Emenda Constitucional número 1, que instituiu a pena de morte para crimes políticos , o decurso de prazo para projetos do Executivo (bastava fazer com que a proposta não fosse votada para tê-la aprovada) e a eleição indireta para a presidência da República.

Depois de muita movimentação entre os candidatos a candidato – todos generais de quatro estrelas – o Alto Comando das Forças Armadas resolveu escolher o sucessor de Costa e Silva pelo voto. Divididos em onze “distritos eleitorais”, 118 generais puderam indicar três nomes cada. O mais votado foi Emílio Garrastazu Medici, chefe do Serviço Nacional de Informações.

Nascido em 4 de dezembro de 1905, no Rio de Janeiro, Medici não era uma liderança forte. Na descrição do jornalista Elio Gaspari, ao contrário de seus companheiros de governo, “Garrastazú era o silêncio da orquestra. Sua única atribulação foi burocrática. Como capitão, respondera a um processo por falta de zelo no cumprimento do dever e saíra limpo por conta de um habeas corpus. Ainda que taciturno, era estimado por calmo e solícito. Bom de bola, falava muito de futebol, nada de política. (...) Na tumultuada divisão de 1964 prenunciava-se o fim de sua carreira. Dificilmente receberia a quarta estrela. Cumprira uma escrita regular e desembocaria em breve na paz do varandão da querência. Não há um só relato de conspirador dos anos 60 que mencione envolvimento de Medici na fermentação antijanguista.”

Na reunião ministerial que discutira o AI-5, o silencioso Medici consignara sua posição sem meias palavras:

Eu me sinto perfeitamente à vontade [...] e, por que não dizer?, com bastante satisfação, em dar o meu aprovo ao documento que me foi apresentado. Isto porque, senhor presidente, em uma reunião do Conselho de Segurança Nacional, no desempenho das funções que vossa excelência me atribuiu, como chefe do SNI, tive oportunidade de fazer minucioso relato da situação nacional brasileira e demonstrar aos conselheiros que por fatos e por ações o que estava na rua era a contra-revolução. Acredito, senhor presidente, que com a sua formação democrática, foi vossa excelência tolerante demais, porque naquela oportunidade eu já solicitava [...] que fossem tomadas medidas excepcionais para combater a contra-revolução que estava na rua. Era só o que eu tinha a dizer.

A Arena homologou o nome do novo presidente em uma reunião de apenas uma hora, enquanto o MDB discutia o que fazer na hora da votação. O partido se dividiu em três grupos: um preconizava a simples ausência, outro admitia dar um voto de confiança ao futuro presidente e o terceiro defendia o comparecimento, com abstenção. Foi essa linha que prevaleceu. No dia marcado, 25 de outubro de 1969, Medici recebeu 293 votos dos convencionais da Arena. Houve 76 abstenções, devidamente justificadas, em tom grave e monótono, pelo senador Oscar Passos, presidente do MDB:

A eleição do presidente da República, no momento atual, traduz a expectativa do retorno à normalidade democrática. Aqui presentes, queremos significar que damos um crédito à prometida normalização da vida nacional". (...) Estamos persuadidos de que as nossas dificuldades ampliam-se na medida em que o povo é afastado do centro das decisões. Reivindicamos o direito de serem reconhecidas e respeitadas as vitórias legais que obtivemos, até a ambicionada conquista do poder.

Ao deixar o Congresso, outro senador, Paulo Brossard confirmou o desalento da oposição com alguma erudição:

Eleger, do latim 'eligere', quer dizer escolher, separar, estremar, nomear, preferir, selecionar, designar. E no caso não se trata de eleger, porque a eleição já foi feita. O que mais se poderia dizer seria aprovar, ratificar, homologar.

Mal terminou a votação e o general chamou os jornalistas que davam plantão diante da residência oficial do ministro da Aeronáutica e se dispôs a dar uma entrevista. Nenhum repórter arriscou qualquer pergunta, até que alguém pediu uma saudação para o povo brasileiro e o general afinal abriu a boca:

No momento em que acabo de ser eleito pelo Congresso, peço um voto de confiança ao povo brasileiro e a colaboração sempre indispensável da imprensa.

Sem o voto de confiança do MDB e com a indispensável colaboração da imprensa assegurada por uma censura feroz, Medici navegou no milagre econômico, festejou a conquista da taça Jules Rimet pela seleção brasileira na Copa de 1970 e enfrentou o acirramento da guerrilha urbana e dos sequestros com prisões ilegais, tortura e desaparecimentos tornavam-se.

Em 1973, um grupo de parlamentares do MDB que se definia como autêntico procurou o presidente da Associação Brasileira de Imprensa, o jornalista Barbosa Lima Sobrinho e propôs que ele se apresentasse como anticandidato. Era uma forma de denunciar a farsa da eleição indireta num colégio eleitoral dominado pela Arena, em que Ernesto Geisel já estava consagrado. O general nascido em Bento Gonçalves no Rio Grande do Sul, em 3 de agosto de 1908, servira por quatro vezes num gabinete presidencial: em 1945, com Eurico Gaspar Dutra; em 1954, com Café Filho e, em 1961, com Jânio Quadros e no governo Castelo Branco, que o colocara na chefia da Casa Militar.

Ulysses Guimarães imediatamente abraçou e assumiu o comando da anticandidatura que permitia ao MDB levar as teses da oposição pelo país afora.

A campanha foi um sucesso. Ulysses e Barbosa Lima percorreram o país e ocuparam até o espaço reservado aos partidos na televisão. O acordo com os autênticos previa que as anticandidaturas fossem canceladas na véspera da disputa, mas Ulysses resolveu seguir adiante.

Em 15 de janeiro de 1974, o Colégio Eleitoral formado por 503 integrantes, dos quais 401 pertenciam à Arena e 102 ao MDB, cumpriu mais uma vez sua função simbólica. Ernesto Geisel e seu vice, o MILICO Adalberto Pereira dos Santos receberam 400 votos. Ulysses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho, 76, no que o brasilianista Thomas Skidmore definiria como “a sucessão presidencial mais tranquila desde 1964”. Vinte e três autênticos recusaram-se a participar da votação.

Ao deixar o hotel rumo a cerimônia em que receberia os cumprimentos dos delegados ao Colégio Eleitoral, o vice de Geisel, elogiou o terno de seu companheiro de chapa:

Puxa, seu terno está pra frente...

O projeto político de Geisel era tão pra frente quanto seu terno. Ele pretendia afrouxar os controles sobre a sociedade gradualmente e sem perder o comando do processo.

A anticandidatura contribuiu muito para o bom desempenho do MDB nas eleições parlamentares, as primeiras em que a oposição pode ir à TV no horário eleitoral, desde 1964. Os candidatos do MDB denunciaram a repressão, a injustiça social e o modelo econômico concentrador de riqueza, tratando de temas proibidos como a Lei de Segurança Nacional, o AI-5 e a legislação de controle salarial.

O partido conquistou 16 das 21 cadeiras em disputa no Senado, somando 50% dos votos, contra os 34,7% dados à Arena e 15,1% de nulos e brancos. Na Câmara, o governo ganhou apertado: 40,9% contra 37,8%. Os brancos e nulos somaram 21,3%.

O quarto general a comandar o país desde 1964 avalizou as ações dos militares na repressão à guerrilha do Araguaia e a tortura a presos políticos. Mas acabou demitindo seu ministro do Exército, Silvio Frota, depois que o Doi-Codi de São Paulo matou o segundo preso político e forjou seu enforcamento – o operário Manoel Fiel Filho, que repetia assim as circunstâncias da morte do jornalista Vladimir Herzog, alguns meses antes.

Depois de desbaratar a guerrilha do PC do B e de desmontar o Partido Comunista, o governo implantou a lei Falcão, restringindo o horário eleitoral na TV – pela nova lei, os partidos podiam, quando muito, apresentar foto e currículo de seus candidatos.

Em abril de 1977, Geisel fechou o Congresso e baixou o pacote de abril, que alterou as regras do colégio eleitoral para garantir a vitória de outro candidato do governo. Afinal, em janeiro de 1979, depois de Geisel ter se decidido por João Figueiredo, que chefiava o SNI, entrou em vigor a emenda constitucional número 11 que acabava com o AI-5.

A partir do momento em que foi escolhido, João Figueiredo passou por uma cuidadosa operação de reconstrução de sua imagem, que teve respaldo em parte da imprensa, supostamente oposicionista. Em razão de uma conjuntivite crônica, o general andava para cima e para baixo usando óculos escuros, exibindo assim a imagem pronta e acabada da caricatura de um ditador latino-americano. Além de recomendar que o candidato combatesse a infecção ocular com colírio, o secretário particular do general Geisel montou um verdadeiro dossiê em que o chefe do SNI aparecia como um homem atlético, bem humorado, inteligente e democrata. De acordo com Elio Gaspari, “Heitor Ferreira entregou a jornalistas de sua confiança em pelo menos quatro redações (Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo) um maço de fotografias e textos que viria a ser chamado “Pacote de Julho”. O resultado ficou visível no domingo. Os jornais traziam extensos perfis do general e as duas revistas, sufotografia na capa. Desencapuzara-se o candidato.

O país aprendeu que o chefe do SNI nascera numa casa de vila do bairro de São Cristóvão, tinha uma irmã e quatro irmãos (o teatrólogo Guilherme Figueiredo, dois generais e um dentista). Sua primeira professora chamara-se Zulmira e a primeira neta, Tatiana.

Fora o primeiro de turma nos três principais cursos do Exército, e o nome de sua mulher era Dulce. Divertia-se montando cavalos e resolvendo problemas matemáticos. (Era capaz de demonstrar a fórmula da equação de segundo grau, mas atrapalhava-se para provar que os ângulos internos de um triângulo somam 180 graus.) Fumava cigarros Max (americanos). Fazia versos ruins: "Fecha a guarda ao picareta/ De tantos a profissão,/Falso, se usando a caneta, A fala ou a educação."

O noticiário ressaltava três traços de seu perfil político. De um lado, a herança paterna da luta do general Euclydes Figueiredo contra o poder pessoal e a ditadura de Getúlio Vargas. De outro, a ligação com Golbery, a quem conhecera em 1958 e que em 64 o levara para o SNI. Finalmente, a disciplinada fidelidade a Geisel e ao projeto de distensão. Fixava o retrato de um militar austero e reservado, avesso à política e ao alpinismo social. Fazia sete anos que estava no Planalto, e era praticamente desconhecido.

Mas não era tarefa fácil maquiar um candidato tão rebelde. Sete meses antes da eleição, os repórteres da Folha de S. Paulo, Getúlio Bittencourt e Haroldo Cerqueira Lima conversaram longamente com Figueiredo. Sem usar gravador, reconstituíram fielmente as declarações do chefe do SNI, com a ajuda da memória prodigiosa de Bittencourt. Entre outras pérolas, o futuro presidente comparou democracia com laranjas (Nós temos a laranja-lima, a laranja-pêra, a laranja-baía, que têm sabores diferentes, mas nem por isso deixam de ser laranjas. [...] Assim também há democracias diferenciadas) e chegou à conclusão de que o povo não estava preparado para escolher seus governantes:

Me respondam, o povo está preparado para votar? [...] O brasileiro pode votar bem, se ele não conhece noções de higiene? [...] Eu encontrei outro dia, num quartel, um soldado de Goiás que nunca escovara os dentes e outro que nunca usara um banheiro. E por aí vocês me digam se o povo já está preparado para eleger o presidente da República...

Foi nessa altura que o PMDB resolveu apostar suas fichas em outro general: Euler Bentes Monteiro. A ideia foi do senador Roberto Saturnino, que convenceu Ulysses e Tancredo. Para vice, foi escalado o gaúcho Paulo Brossard. Parlamentares do chamado grupo autêntico, como Francisco Pinto e Marcos Freire, embarcaram no projeto. Nacionalista, Euler defendera o monopólio estatal do petróleo nos anos 50 e fora eleito para o Clube Militar. Cursara a Escola Superior de Guerra, mas se recusara a participar do golpe de 1964. Presidira a Sudene e estava na chefia do Departamento de Material Bélico.

Em termos numéricos, a vitória de Euler dependia de um improvável racha nas hostes governistas. De acordo com o jornalista Augusto Nunes, alguns deputados foram perguntar a opinião de Tancredo Neves, que saiu-se com esta:

─ O Hugo Abreu não é oficial paraquedista? Esse mesmo, teria sido a resposta. ─ Pois se eu paro, olho e medito antes de descer um degrau, como é que vou me juntar com um camarada que se joga de um avião lá do céu e sem ter asas?

O paraquedas de Euler pode ter aberto, mas ele aterrissou longe do alvo: no dia 15 de novembro de 1978, o candidato do PMDB teve 226 votos, enquanto Figueiredo foi eleito com o apoio de 335 integrantes do colégio eleitoral dominado pela Arena. Naquele mesmo dia, o ex-chefe do SNI fez uma declaração que parecia sinalizar um novo tempo para as relações entere governo e oposição:

Reconheço que a disputa é própria dos regimes abertos, das instituições sadias. Travado o pleito, porém, quero apresentar ao povo a mensagem que é a própria expressão do caráter nacional: a minha mão estendida em conciliação.

No dia 15 de março de 1979, João Figueiredo tomou posse, prometendo em seu discurso “fazer desse país uma democracia”.

A anistia parcial – que excluía os chamados crimes de sangue – e recíproca (torturadores foram liminarmente perdoados – foi aprovada pelo Congresso em agosto de 1979. Três meses depois, 1979, o pluripartidarismo foi restaurado no Brasil. Arena e MDB foram extintos, mas a criação de novos partidos foi cercada de dificuldades: para ter representação no Congresso, era preciso obter pelo menos 5% da votação nacional e 3% em nove estados diferentes. Os comunistas continuavam proscritos. No início de 1980 havia seis partidos: PDS e PMDB, herdeiros da Arena e do MDB, o PT de Lula, o PTB de Ivete Vargas, o PDT de Leonel Brizola e o PP de Tancredo Neves, Magalhães Pinto e Chagas Freitas, que logo adiante refluiria para o PMDB.