Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Maria Antônia

Quem passasse pela rua Maria Antônia, no centro de São Paulo no dia 2 de outubro de 1968, seria surpreendido: de cada lado da pista, havia um pequeno exército improvisado. De um lado, estudantes do Mackenzie; do outro, a turma da Filosofia. Na verdade, havia mais que universitários nos dois campos: secundaristas engajados na greve da Filosofia e policiais junto aos mackenzistas.

De acordo com os jornais, a primeira provocação veio do lado do Mackenzie, na forma de ovos endereçados rumo aos estudantes que paravam os carros num pedágio improvisado para arrecadar dinheiro. A resposta foram pedras. Logo depois, munição mais pesada: coquetéis molotov, bombas, rojões, além de tiros de revólver e vidros cheios de ácido sulfúrico de um lado e outro da rua.

Às duas da tarde, a reitora do Mackenzie, Esther Figueiredo Ferraz, pediu uma tropa de choque – 30 guardas-civis – para “proteger o patrimônio da escola”. Quando a polícia chegou, deu-se uma trégua. Durante a noite, as duas escolas discutiram a briga, em assembleias: deliberou-se pela defesa, e no ataque somente se for atacado. E assim acabou o primeiro dia de conflito.

Pouco antes da nove da manhã do dia seguinte, 3 de outubro, a movimentação recomeçou. Um grupo de rapazes saiu pelo portão do Mackenzie, foi até a entrada da Faculdade de Filosofia e arrancou uma faixa suspensa entre as duas colunas, que dizia “CCC, FAC e MAC = Repressão”, e mais abaixo “Filosofia e Mackenzie contra a Ditadura”. Foi o fim da trégua.

Na retomada do confronto, guardas-civis passaram a proteger o Mackenzie. Luís Travassos, Édson Soares e José Dirceu comandavam a resistência da Filosofia. Por volta do meio-dia, curiosos e colegiais se aglomeravam nos dois extremos da rua, e, aproveitando-se da situação, universitários da USP passavam com saquinhos de papel, a fim de dinheiro “para comprar material de guerra”.

Deu-se então o primeiro embate entre polícia e estudantes, do qual saiu ferido na perna o estudante de Economia Jorge Antônio Rodrigues. Outro aluno, desta vez do Mackenzie, foi ferido no rosto por um rojão. Foram instalados fios elétricos nos portões e grades do Mackenzie.

Por volta das 13h30, a pedido da USP, chegou um carro-tanque com bombeiros, para combater aos focos de incêndio que se multiplicavam pelo prédio da Maria Antônia. Dirceu ordenou duas vezes a invasão ao Mackenzie, ambas rechaçadas com pedras e rojões, à investida uspiana, o que frustrou a ação.

O combate aumentou de intensidade. Universitários atingidos por pedradas foram levados para a Faculdade de Ciências Econômicas, onde havia um ambulatório.

O trabalho dos bombeiros não parava. Rojões estouravam intermitentemente na Rua Maria Antônia. Súbito, defronte à Faculdade de Filosofia, um estudante com os braços abertos e quase se ajoelhando na calçada berrou: "Ambulância, ambulância, por favor". E atrás deste vieram mais rapazes carregando um jovem de cabelos pretos que tinha a camisa de linho branco tinta de sangue. Era José Guimarães, aluno do Colégio Marina Cintra, terceira série ginasial, vinte anos. Pintava nas horas vagas. Tinha mãe viúva. Ao passar pela Rua Maria Antônia resolveu ajudar os universitários. Recolhia pedras para a USP. Uma perua dos "Diários Associados" levou-o para o Hospital das Clínicas. Mas José Guimarães morreu no caminho. Na Maria Antônia ele deixou revolta e manchas de sangue. Laudo da autópsia:

"A bala é de calibre superior a 38 ou de fuzil. Havia seis ou sete pedaços de chumbo no cérebro. O tiro entrou 1 centímetro acima da orelha direita e saiu à altura da linha mediana da cabeça, atrás, ligeiramente à esquerda. A bala fez um percurso de cima para baixo, em sentido oblíquo"

Quem atirou? Ninguém sabe.

Neste cenário conturbado, um estudante foi morto. Era José Guimarães. Segundo a Folha de S. Paulo, o rapaz gostava de dançar, de ouvir música e apreciava ler, mas seu hobby preferido era a pintura, a qual se dedicava às tardes, quando não trabalhava. Cursava o 3º colegial, no Ginásio Estadual Prof. Maria Cintra. Morava com a mãe viúva e a irmã, próximo à Vila Mariana, para onde se mudara com a família há menos de uma semana. Segundo a irmã, Maria Eugênia, José não era participante ativo do movimento estudantil, e, no dia de sua morte, disse que sairia para comprar telas e outros materiais para a pintura, o que, como supõe ela, era uma desculpa para ver o conflito entre os estudantes, por “curiosidade só”. Amigos, no entanto, contradizem essa informação, afirmando “ter ele comparecido por diversas vezes a Faculdade de Filosofia, participado das reuniões dos estudantes”. A família concordou na transladação do corpo do jovem para ser velado no CRUSP, para onde seguiu logo após a autópsia.

Oitocentos estudantes saíram em passeata, liderados por Dirceu e Édson Soares, para denunciar a morte de Guimarães. Vários carros foram incendiados.

Um repórter da Tribuna da Imprensa foi ferido na cabeça. A Faculdade de Filosofia foi ocupada. Os mackenzistas cantavam o Hino Nacional e davam vivas. A reitora Esther Figueiredo Ferraz cumprimentava funcionários e estudantes. Estes últimos, em comemoração, foram beber. Enquanto a família velava o corpo do jovem, no CRUSP, o Professor Eurípedes Simões de Paula, diretor da Faculdade de Filosofia, observava que “o prédio da Maria Antônia não tem condições de funcionar até o fim do ano”, o que levou à transferência para a Cidade Universitária.

A rivalidade entre grupos das duas universidades era antiga: em 1964, o CCC – Comando de Caça aos Comunistas tinha invadido a Faculdade de Filosofia, depredando o espaço e espancando estudantes. Em 1966, quando foi eleito Luís Travassos, repetiu-se a invasão, para destruir a urna de votação. No ano seguinte, José Dirceu substituiu Travassos e houve novas brigas.

O depoimento do professor Antônio Cândido dá uma boa ideia do clima. Segundo suas palavras, a Faculdade começa a mudar de posicionamento em fins da década de 50, quando há a mudança de uma “atitude neutra e relativamente contemplativa para um empenho da faculdade enquanto faculdade, mobilizada para participar dos problemas do momento. Não mais individualmente, mas como grupo. E até com certo esforço para superar o espírito corporativo, que mantinha professores e estudantes como setores separados e paralelos, com tipos específicos de atuação”. Com isso, na década de 60, a Faculdade já estava empenhada nos problemas sociais que a cercavam. Nessa época, o corpo docente já era diverso, se constituindo basicamente de brasileiros – em contraposição à forte influência estrangeira que até então fomentava a produção acadêmica. A atmosfera popular e nacionalista do governo Jango também foi determinante: “os jovens embalaram nos grandes movimentos mais ou menos radicais, interessados na cultura do povo e para o povo, através do teatro, do cinema, da poesia, dos métodos renovados de ensino elementar”.

A Maria Antônia, agora centro dessa mentalidade renovada, se empenhava profundamente nos movimentos sociais, e, “por isso mesmo, quando veio o golpe militar de 1964, ela foi imediatamente invadida, depredada, com alunos e professores detidos, inquéritos abertos – num vasto movimento de intimidação e repressão. Mas o fermento interno não baixou. Na fase menos áspera da ditadura, de 1964 a 1968, ele continuou a subir, até desfechar no ano decisivo de 1968”.

Com um belo arranjo de palavras, Antônio Cândido bem define o que foi 1968, em escala mundial:

1968 há de ficar na crônica do século como o ano da mocidade, representada pelos estudantes a partir das agitações da Universidade de Berkeley em 1964. O moço se transformou durante algum tempo na força mais viva da sociedade, parecendo inclusive substituir o operário como fator principal na transformação das instituições. Politicamente, culturalmente, ética e até esteticamente o moço abalou as concepções e os costumes – substituindo o respeito pela irreverência, a organização cristalizada pela ação espontânea, o cálculo pela inspiração, a compostura pelo desalinho, a seleção pela invasão, o ‘bom gosto’ pelo frenesi. Toda autoridade pareceu de repente sórdida, e as palavras mais ofensivas passaram a ser ‘elitismo’, ‘paternalismo’, ‘autoritarismo’. Para substituir o modelo pai-filho que regia a sociedade e sobretudo o ensino, propôs-se um modelo do tipo irmão-irmão, que repercutiu na concepção de universidade que abalou o cerne das normas didáticas.

Já no ano anterior, a faculdade tivera sido palco de reivindicações, mais especificamente sobre o número de vagas para ingressantes: aprovadas em Psicologia, algumas pessoas foram impedidas de se matricular em função da ausência de vagas, o que gerou avultado tumulto. Em 1968, no entanto, o cenário era outro. As agitações estudantis de maio na França deram novo fôlego aos estudantes brasileiros, motivando-os ainda mais em suas aspirações de mudança, expressas em pautas como a da reforma universitária.

Neste panorama complexo deve ser entendida a batalha da Maria Antonia, assim definida por Antonio Cândido:

Foi o apogeu e o canto do cisne da Maria Antônia, que caiu junto com os restos de democracia no fim do ano. Em frente dela, a Universidade Mackenzie representava a mentalidade conservadora tradicional, e os conflitos surgiram quando os estudantes da Maria Antônia estabeleceram o pedágio na rua e dela tomaram posse. Nessa altura já estava em preparo a fase terrível da ditadura, e os seus promotores se serviram provavelmente da disputa entre os dois lados da rua para desfechar a pancada mortal do lado de cá. Aos olhos da opinião convencional, a coisa devia se configurar mais ou menos assim: no Mackenzie, a ordem, os bons costumes, a tradição, escorada em mestres confiáveis e rapazes de família bem organizadas; na Faculdade de Filosofia, a subversão, a baderna, a ameaça à estabilidade, por parte da juventude solta no mundo, sem amparo familiar, mal orientada por professores rebeldes.

Fontes:

A violência que divide esta rua. Jornal da Tarde. 03/10/68.

DOPS: Mackenzie não quis que Filo-USP cobrasse o pedágio. Folha de S. Paulo. 03/10/68

Um morto em novo conflito na rua Maria Antônia. Folha de S. Paulo. 04/10/68.

Destruição e morte por quê? Veja. 09/10/11.

Bibliografia:

ARAUJO, Maria Paula. Memórias Estudantis: da fundação da UNE aos nossos dias. Rio de Janeiro: Relume Dumará, Fundação Roberto Marinho, 2007.

DIRCEU, José; PALMEIRA, Vladimir. Abaixo a Ditadura. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo; Garamond, 2003.

SANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos (org.). Maria Antônia: uma rua na contramão. São Paulo: Nobel, 1988.