Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Morte de Edson Luís

Relatório das circunstâncias da morte de Edson Luís:

Dados Pessoais

Nome: Edson Luis de Lima Souto

Cidade: (onde nasceu) Belém

Estado: (onde nasceu) PA

País: (onde nasceu) Brasil

Data: (de nascimento) 24/2/1950

Atividade: Estudante secundarista

Morto ou Desaparecido: – Morto. 28/3/1968, Restaurante Calabouço

Órgão de repressão: (envolvido na morte/desaparecimento) – Polícia Militar. PM

Médico legista: Ivan Nogueira Bastos/ Nilo Ramos de Assis

Edson Luis era de Belém, no Pará e tinha 17 anos. Fazia o curso secundário no Instituto Cooperativo de Ensino, que ficava no Calabouço, o prédio onde funcionava o restaurante universitário. No dia 28 de março de 1968, seu nome figurou no boletim de ocorrência n. 917, da 3ª DP e desse modo, entrou para a história. De acordo com o B.O, outras seis pessoas ficaram feridas, sendo atendidas no Hospital Souza Aguiar: Telmo Matos Henriques, Benedito Frazão Dutra (que veio a falecer, logo depois), Antônio Inácio de Paulo, Walmir Gilberto Bittencourt, Olavo de Souza Nascimento e Francisco Dias Pinto. Mais três pessoas foram feridas na Praça Floriano, durante o velório de Edson Luiz, realizado na Assembléia Legislativa, em decorrência da violência de policiais civis e militares: Jouber Valan, João Silva Costa e Henrique Rego Carnel, também atendidos no Hospital Souza Aguiar.

Os fatos, de acordo com a reportagem dos jornais da época:

“A morte do estudante Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos – baleado no peito, às 18h30m de ontem, durante um conflito da PM com estudantes no Restaurante do Calabouço – provocou a greve geral de várias Faculdades do Rio e o movimento deverá estender-se pelo País. O corpo da vítima, que está sendo velado na Assembléia Legislativa, sairá às 16 horas de hoje para o Cemitério São João Batista.

Os acontecimentos agitaram a sessão noturna da Câmara dos Deputados onde o Sr. Lurtz Sabiá pediu que o Congresso fique em sessão permanente, e o deputado Brochado da Rocha sugeriu que as duas Casas do Congresso se transformassem em Comissão Geral para investigar os fatos ocorridos no restaurante dos estudantes. O Congresso Nacional e a Assembléia Legislativa da Guanabara decretaram luto. O ministro da Justiça, Sr. Gama e Silva, saiu de Brasília e voltou ontem à noite ao Rio.

O governador Negrão de Lima, numa reunião de mais de duas horas com o Secretário de Segurança, general Dario Coelho, e outras autoridades, no Palácio Guanabara, decidiu afastar o General Osvaldo Niemeyer da Superintendência da Polícia Executiva, para que os acontecimentos sejam apurados com toda a isenção. Ficou também decidida a instauração imediata de inquérito policial a ser orientado por um membro do Ministério Público.

Todos os estabelecimentos de ensino do Estado não funcionarão hoje em sinal de pesar pela morte de Edson Luís, por determinação do sr. Negrão de Lima. Alguns teatros do Centro e da Zona Sul, que estavam funcionando quando se verificou o atrito entre a PM e os estudantes, suspenderam os espetáculos em sinal de solidariedade – e o público, ao ser inteirado do motivo, aplaudiu de pé.

O sr. Carlos Lacerda não se alterou ao receber, em São Paulo, a notícia da morte do estudante. Ele falava no Painel de Debates da Assembléia Legislativa de São Paulo, promovido pelo MDB, quando recebeu um bilhete sobre os acontecimentos do Rio. Fez uma pausa no discurso, leu o comunicado e declarou: “Não acredito que o sr. Negrão de Lima seja o responsável”. Em seguida, prosseguiu no seu pronunciamento.

Na Câmara Federal, as galerias ficaram lotadas de estudantes, que aplaudiram sucessivos pronunciamentos dos deputados da oposição. O presidente do Congresso, sr. Pedro Aleixo, ameaçou várias vezes de mandar retirar os manifestantes. Em defesa do governo – sempre atacado pela Oposição – falou apenas o Sr. Último de Carvalho. Leu um texto oficioso, afirmando que já estava prevista, há algum tempo, a passeata dos estudantes, “empunhando as bandeiras do Brasil e do Vietcong”.

Há, por enquanto, duas versões para o atrito de ontem à noite no restaurante dos estudantes: 1) estes jantavam, pacificamente, enquanto outros assistiam a uma aula, quando um choque da PM, chefiado por um tenente de nome Alcindo ou Costa, invadiu o restaurante e iniciou o espancamento, ao qual os estudantes reagiram com pedradas que, por sua vez, provocaram tiros; 2) os estudantes teriam sido colhidos pela PM, em plena manifestação contra o atraso na conclusão das obras do restaurante.

Além do estudante morto, do outro ferido a tiro e de vários espancados pela PM, houve mais uma vítima: o comerciário Telmo Matos Henriques, ferido na boca por uma bala quando estava à sua mesa de trabalho, numa firma próxima. O choque da PM retirou-se do restaurante desfechando tiros para o ar – e na passagem por uma galeria deixou nas paredes marcas de balas que, segundo testemunhas, seriam de metralhadoras.

O estudante Edson Luís foi conduzido pelos companheiros, à Santa Casa de Misericórdia, onde, constatada a sua morte, iniciou-se o cortejo rumo à Assembléia Legislativa. O corpo foi erguido nos braços da multidão que entoava o brado “polícia assassina” ao dar entrada na Assembléia. Ali houve, durante a noite, vários comícios estudantis, de protesto violento contra o governo – e uma multidão postou-se, até à madrugada, na expectativa dos acontecimentos.

Em visita à Assembléia, o General Niemeyer defendeu os policiais. Indagado por que a polícia atirara, respondeu:

- A polícia estava inferiorizada em potência de fogo.

- Potência de fogo? É arma?

- É tudo aquilo que nos agride. Era pedra.” Jornal do Brasil , 29 de março de 1968.

“A ordem era “quebrar tudo” e foi cumprida. A PM cercou o Calabouço; depois, houve a invasão e o massacre. A princípio, foram os cassetetes; a seguir, os revólveres. O ataque só foi suspenso quando havia um morto no chão: Nelson Luís Lima, uma bala no coração. Outro estudante – Benedito Frasão Dutra, 20 anos – escapou com vida, fingindo-se de morto. Seriamente ferido, foi conduzido pelos companheiros juntamente com o corpo do estudante-mártir, até o saguão da Assembléia Legislativa. As violências não terminaram: a ordem era prender. Mais tarde vieram as bombas de gás lacrimogênio e o número de feridos multiplicou-se.

O massacre virou crise. O Sr. Negrão de Lima reuniu-se com todos os auxiliares. SNI presente. Aulas de hoje estão suspensas. Luto é geral: escolas, diretórios, a própria Assembléia. O general Osvaldo Niemeyer foi afastado; determinou-se abertura de inquérito. Parlamentares pediram a queda de toda a cúpula da PM. A camisa do jovem morto foi erguida como estandarte por seus colegas: o protesto continua. Os diretórios acadêmicos de todas as faculdades decretaram greve geral e marcaram assembléia para hoje. Os teatros da Guanabara fecharam e os artistas hipotecaram solidariedade aos estudantes, ficando em luto oficial durante três dias. Pedido o afastamento de Dario Coelho. O governador mandou prender o tenente assassino. O sepultamento será às 16 horas, no Cemitério de São João Batista, por conta do Estado.”

“Vão lá e quebram tudo”: a ordem do comandante do choque foi cumprida e, minutos depois, no Calabouço, usando revólveres e cassetetes, a Polícia Militar iniciou o massacre dos estudantes, só parando de bater quando já havia um morto – Nélson Luís de Lima Souto, 16 anos – e vários feridos, a bala, a socos e a coronhadas.

Os jovens estavam reunidos no restaurante, quando foi ordenado o cerco – seis carros da PM fechando todas as saídas – e, logo que os policiais abandonaram suas posições, os moços saíram em direção à Assembléia, levando nos braços um companheiro morto e outro agonizante, para a manifestação de protesto, até a madrugada.

Às 18 horas de ontem, cerca de 600 estudantes reuniam-se no Calabouço, esquematizando a passeata em que reivindicariam a conclusão das obras do restaurante e do Instituto Cooperativo de Ensino. De repente, surgiram os carros da PM e o cerco foi feito: dois na frente do prédio, quatro atrás. Às 18h30m, os policiais avançaram, em direção à entrada do restaurante. Quando ocorreu a invasão, os estudantes procuraram defender-se, usando pedras e sacos de areia.

Começaram os disparos: os soldados da PM atiravam para o alto, de início, mas logo passaram a acionar suas armas em todas as direções, tanto que chegaram a atingir um comerciário que assistia a tudo, da janela de uma firma comercial. Nélson Luís de Lima Souto foi o primeiro a cair: uma bala no coração derrubou-o na hora. Logo depois, outro estudante recebia dois tiros: no braço e na cabeça. Só então veio a ordem do comandante do choque: iniciar a retirada. (…)” Diário de Notícias, 29 de março de 1968.

"O fuzilamento de estudantes no Calabouço, que provocou a morte do menor Nelson Luiz Lima Souto, levou o governador Negrão de Lima a demitir o general Oswaldo Niemeyer Lisboa do cargo de Superintendente da Polícia Executiva, como primeiro passo visando a que o inquérito que vai apurar os responsáveis pelo massacre “não fique somente no âmbito policial”. Vários outros feridos, entre populares que assistiam às manifestações, estudantes e jornalistas foram medicados no Pronto Socorro, uns atingidos pelos cassetetes dos PMs, outros pelos estilhaços das bombas e balas.

Às 22 horas, o general José Horácio da Cunha Garcia, comandante do I Exército, decretava a prontidão em todas as guarnições da Guanabara. Os estudantes contrataram o advogado Sobral Pinto como seu patrono no processo de punição do autor ou autores da morte de Nelson Luiz.

Enquanto isso o governador Negrão de Lima lamentava a violência policial e decretava luto oficial, hoje, em todas as Escolas Públicas, com suspensão das aulas. O governador acentuou também que os estudantes terão “toda a liberdade” para fazer o enterro de seu colega morto e, por sua ordem direta, foram soltos os 14 estudantes presos nos incidentes.

O secretário de Imprensa da Presidência da República, jornalista Heráclio Sales, decretou, em Brasília, que o presidente Costa e Silva estava plenamente informado, através do Ministério da Justiça, de todas as ocorrências na Guanabara e que o Governo estava “adotando as providências necessárias para a manutenção da ordem”. Ontem, à noite, veio de Brasília para o Rio, com instruções do titular da Justiça, o coronel Florismar Campelo, diretor-geral do Departamento Federal de Polícia, e hoje deverá chegar ao Rio o ministro Gama e Silva.

Os estudantes não concordaram em que o corpo de Nelson Luiz saísse da Assembléia Legislativa e a uma e meia da madrugada foi feita a autópsia no local onde o estudante está sendo velado. Em Belo Horizonte, universitários reunidos no Centro Acadêmico Afonso Pena fizeram uma série de protestos, com comícios no recinto da Faculdade de Direito. Também os universitários da Faculdade de Direito do Estado da Guanabara decretaram luto oficial por três dias e propuseram às demais faculdades o não comparecimento às aulas, hoje, em sinal de protesto.

Os acontecimentos também tiveram pronta repercussão no Congresso, que, reunido à noite, suspendeu o início da discussão do chamado projeto dos ociosos, para que diversos oradores abordassem a situação na Guanabara. O Sr. Raul Brunini foi o primeiro orador, fazendo um relato das ocorrências e condenando “o vandalismo e a covardia da Polícia”. O Sr. Mariano Beck falou em seguida, para expressar a solidariedade gaúcha ao povo carioca, o mesmo fazendo o Sr. Pereira Pinto, em nome da bancada do Estado do Rio. Diversos outros oradores sucederam-se na tribuna, inclusive o líder do MDB, deputado Mário Covas, que responsabilizou diretamente o governador Negrão de Lima pelos acontecimentos. A sessão se prolongou até às duas horas da madrugada.” O Jornal, 29 de março de 1968.

“O estudante Nelson Luis Lima Souto, de 17 anos tombou com um tiro no coração quando a polícia militar invadiu o Calabouço, na tarde de ontem, iniciando um massacre que resultou em grande número de feridos e provocou um clima de tensão em todo o centro da cidade. O comandante do choque da PM, Tenente Alcindo, é acusado pelos estudantes de ter assassinado Nélson a sangue-frio, encostando a arma em seu peito. Grande área do aterro foi transformada em campo de batalha, com os soldados da Polícia Militar disparando armas de fogo contra os estudantes, que denunciaram a participação de tropas da Aeronáutica, utilizando metralhadoras.”

“Três choques da PM e a guarnição de duas viaturas de patrulha chegaram ao Calabouço no momento em que os estudantes organizavam a passeata de protesto contra o aumento de preços das refeições e a demora na conclusão do restaurante. Auxiliados por uma tropa da Aeronáutica, entraram no restaurante disparando suas armas e dois estudantes caíram feridos: Benedito Frazão Dutra e Nélson Lima Souto. Este morreu pouco depois, nos braços dos companheiros. Outro tiro feriu o comerciante Talmo Henrique, em seu escritório.” Última Hora, 29 de março de 1968.

“Milhares de pessoas desfilaram, das 6 às 15 horas de ontem, diante do corpo do estudante Nélson Luís Lima Souto, que foi velado na saguão da Assembléia Legislativa depois da autópsia feita pelo legista Nilo Ramos. O corpo estava envolto na Bandeira Nacional e se achavam sobre o peito dois terços, cravos e um caderno de Geometria, que pertencia ao extinto. Um representante da Casa do Pará colocou sobre o corpo uma Bandeira do Pará, terra natal do estudante. Mais de trinta coroas foram enviadas à Assembléia por estudantes sindicais e estudantis.

Cerca de vinte pessoas, das quais apenas um homem, sofreram crises emocionais. Uma senhora idosa caiu em prantos. Um aluno do Pedro II disse à reportagem: “Antes havia greves e não matavam estudantes”. A jovem Carmem Santos Corrêa, que estava nos jardins da Cinelândia, teve mal súbito, sendo medicada no Hospital Sousa Aguiar.

Cinco mil pessoas, aproximadamente, se aglomeravam em frente à Assembléia, não se notando, nas proximidades, policiais fardados, mas apenas agentes do DOPS e do SNI. O tráfego foi desviado para a Avenida Rio Branco e Rua Evaristo da Veiga.

Até às 15 horas, os estudantes haviam recebido, de donativos, três mil cruzeiros novos, que se destinarão à construção de uma estátua, em homenagem ao morto, em frente ao Restaurante Central dos Estudantes. O restante, segundo ficou deliberado, seria enviado à família do estudante, em Belém do Pará e custearia os funerais, pois foi recusado o oferecimento do Governo Estadual.

A Srta. Cléia Martins, prima, em segundo grau, de Nélson Luís e também comensal do Restaurante Central, disse que teve conhecimento da morte através do rádio.

Com a presença de milhares de pessoas, na grande maioria estudantes, realizou-se, às 19h30m de ontem, no Cemitério de São João Batista, o sepultamento do jovem Nélson Luís de Lima Souto, abatido a tiro durante um conflito ocorrido no Calabouço, quando membros da Cooperativa de Ensino estavam reunidos para acertar detalhes visando à realização de uma passeata de protesto.

O féretro deixou o recinto da Assembléia Legislativa, onde o corpo foi velado, às 16h20m e seguiu por várias artérias da cidade, onde ocorreram alguns incidentes sem gravidade. O enorme número de acompanhantes atrasou sensivelmente o enterro, já que o caixão teve de permanecer por mais de uma hora à porta do Cemitério, aguardando que a massa humana fosse retirada da frente.

Com colegas do morto revesando-se na condução da urna mortuária, o cortejo fúnebre tomou a Avenida Beira-Mar, seguindo, após, pela Praia do Flamengo, onde em frente ao prédio da extinta UNE, um grupo de estudantes queimou uma bandeira americana, usando da palavra na oportunidade, os representantes da FUEG Flademir Palmeira e Luís Brito.

Na Praia de Botafogo, utilizando-se de pedras, os participantes do féretro foram quebrando todas as lâmpadas dos postes. Na Rua da Passagem pediram a dois guardas que tirassem o quepe à passagem do corpo. Os policiais se recusaram e os estudantes jogaram seus quepes longe, o que quase originou novo conflito.

Cerca de 18h20min, o cortejo aproximou-se do Cemitério São João Batista, onde já se encontravam duas tias da vítima, senhoras Virgília Souto e Enedina Souto Pauferro, esta última esposa do 1º Sargento da Aeronáutica Manuel Pauferro. Dezenas de coroas, a maioria ofertadas por Diretórios Estudantis, foram depositadas na quadra 14, em frente à gaveta 602, última morada do jovem Nélson Luís. Os gritos de “vingança” e de “assassinos” se sucediam, ao mesmo tempo em que faixas eram desfraldadas. Entre elas registramos uma dirigida às mulheres: “Senhoras, Nélson poderia ser seu filho”.

Às 19h10min o caixão alcançou a entrada da quadra 14, um corredor com menos de dois metros de largura. Não pôde porém aproximar-se da gaveta 602, situada ao fundo, pois a massa humana invadiu o corredor, ansiosa por ocupar um lugar privilegiado, onde pudesse acompanhar as últimas homenagens que seriam prestadas ao estudante assassinado. (…)

Dez minutos mais tarde, a urna com o cadáver de Nélson Luís foi depositado na gaveta. Grupos de estudantes continuavam a clamar por vingança, enquanto rasgavam outra bandeira americana, com o fogo quase chegando à multidão. (…)”